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DIAS PARA O CARNAVAL!

Igor Cantanhede

Terceiro Milênio promete "sangue nos olhos" por título em 2019

Carnavalesco Murilo Lobo admite baque por vice do Acesso 2 no Carnaval 2018, mas elogia escola por trabalho realizado

07/05/2018 Redação Liga SP - Foto: Igor Cantanhede

Sacodir a poeira e dar a volta por cima. Se os versos do sambista Paulo Vanzolini se aplicassem a uma escola, esta seria a Estrela do Terceiro Milênio. Após liderar boa parte da apuração do Grupo de Acesso 2, a agremiação foi superada pela Mocidade Unida da Mooca na última nota do último quesito. Com o vice-campeonato, adiou a volta à segunda divisão do Carnaval de São Paulo para 2019.

Em conversa com a Liga SP, o carnavalesco Murilo Lobo lamentou o resultado - e foi até crítico ao falar sobre o tema. De contrato renovado com a Terceiro Milênio, elogiou a estrutura da escola, prometeu mais "sangue nos olhos" para buscar a sonhada vaga no Grupo de Acesso e deu pistas sobre o que vem de enredo por aí na próxima disputa.

Liga SP - Como você avalia o resultado do Carnaval 2018 como um todo, já que a Estrela acabou perdendo o título na última nota do último quesito?
Murilo Lobo - Eu costumo dizer que não foi a nota de comissão de frente que nos tirou o campeonato, mas o excesso de notas 10, dadas de uma forma geral. Porque a gente é julgado por pessoas que podem se equivocar. A gente vê uma severidade com o julgamento da nossa pasta, com pequenos detalhes que nos tiraram essas notas, que ao nosso ver é uma interpretação do jurado e nos prejudicou muito. Então a gente está tentando batalhar por uma nova forma de ser julgado. Porque o que a gente apresentou foi um espetáculo de encher os olhos, isso dito por pessoas do Carnaval. A gente trabalhou cada um dos quesitos exaustivamente. Eu estava lá, eu fico na entrada da escola na linha amarela e fiquei muito orgulhoso do que vi. Muito orgulhoso da nossa comunidade, de como as pessoas entenderam o projeto, como elevaram o nível de desfile na Milênio. Essa era minha sensação. Pessoas que são da escola há muitos anos vieram dizer que, no mínimo nos último oito anos, esse era o melhor desfile que a escola fez. Fiquei contente de, junto com nossa equipe técnica, ter conseguido fazer a escola subir alguns degraus. Porque sempre foi nosso objetivo fazer um grande espetáculo, um espetáculo de Acesso 1 e não de Grupo de Acesso 2. E a gente fez. Então é assim: contentes, nós não estamos, obviamente. Infelizmente, nosso regulamento só permite uma escola e a gente acaba ficando sem margem para qualquer tipo de equivoco e isso acabou escapando. Claro que nos causa tristeza de ter trabalhado tanto e não ter conseguido, porque a gente queria fazer ainda mais, eu já tinha enredo para o Carnaval 2019 no Grupo de Acesso 1, então a gente tem que repensar como fazer. Não foi um ano fácil, foi um ano de muito trabalho, a gente trabalhou dez meses nesse Carnaval e aprendeu demais. Estamos prontos para um novo espetáculo. Podem esperar da Milênio o mesmo empenho e esforço de sempre, aliás um pouco mais de sangue nos olhos, porque a gente vai para cima porque a escola merece estar em outro Grupo.

Liga SP - Você já tinha definido sua permanência na escola antes mesmo do desfile?
Murilo Lobo - Eu fui convidado para fazer um trabalho de no mínimo três anos. Não contratado para três anos, convidado. E eu sempre gosto de deixar isso em aberto porque é uma questão de sintonia do carnavalesco com a escola. Previamente não dá para sentir como vai ser. Você pode respeitar o trabalho de um profissional, pode admirar uma escola, mas de repende pode não dar certo a junção técnica para execução do trabalho. Eu recebi outras propostas de outros grupos acima, fui muito aberto com a Milênio e eles quiseram que eu ficasse. Eu quis cumprir minha palavra e fiquei. Estou muito feliz. A Milênio dá muita condição e liberdade de trabalhar. Isso para mim é muito interessante. É uma escola muito organizada, que se compromete e cumpre com seu investimento, não te deixa na estrada. Foi um trabalho feito com muita técnica e atenção e resultou no que as pessoas viram.

Liga SP - Apesar do objetivo principal não ter sido alcançado, é um reconhecimento da escola para com você que o trabalho foi bem feito.
Murilo Lobo - Sim. Ao longo do processo já percebia isso. O antigo carnavalesco ficou oito anos, é um tempo muito grande. Entrou outro profissional trazendo sua própria maneira de ser, que não deve ser igual à dele, e logo percebi que as pessoas foram muito receptivas e gostaram da forma como eu trabalho. Eu gosto muito de enredos culturais e de dizer para as pessoas o que vai acontecer, de explicar para que entendam que fazem parte do espetáculo. Isso foi uma coisa muito bacana, que aproxima dos componentes, das alas, da harmonia de uma forma geral. E eu não sou aquele carnavalesco que faz o projeto visual, entrega e só. Eu vou a reuniões, participo de questões técnicas e colaboro, quero trazer experiências que tive e coisas que eu vi porque foi assim que aprendi. Comecei no Carnaval auxiliando o Jorge [Freitas, hoje na Mancha Verde] e ele é um profissional que trabalha em todas essas áreas. Então eu observei muito. Tenho minha própria maneira de ver, mas tenho essa tendência também. Eu não quero ser diretor de harmonia, mas tenho minha visão para conversar e dizer como estou enxergando como componente. Gosto de poder participar e acho que isso fez muita diferença na Milênio.

Liga SP - Você disse que já tinha enredo para o Grupo de Acesso. Para o Acesso 2 o que já tem planejado?
Murilo Lobo - É uma pena, na verdade. Os enredos são todos histórias, mas quando você vai para os grupos mais acima tem mais espaço para contar a história. Então o que determina o enredo que serve para aquele Grupo, é se a história consegue ser bem contada no espaço que você tem.

Liga SP - Três setores, no caso do Acesso 2...
Murilo Lobo - É. Três carros, quatro ou cinco carros, cinco ou seis setores, o número de alas que consegue contar tua história. E tem histórias com muito conteúdo. A que eu tinha escolhido para contar no Acesso 1 tem conteúdo para Acesso 1. Para o Acesso 2 eu desenvolvi uma outra ideia, já apresentei e eles já curtiram. Estou trabalhando em cima, já tenho desenhos de alegoria e estou mandando bala aqui.

Liga SP - Tem ideia se irão tornar público o enredo e se farão disputa de samba?
Murilo Lobo - Com certeza vamos tornar público o enredo. Se vamos mostrar ou não, não depende tanto de nossa vontade. É curioso porque é assim: a gente vai trabalhar com uma verba para poder fazer o Carnaval e tocar as coisas de quadra. Quando eu entrei lá, o pessoal disse que a gente precisava motivar as pessoas, então eu propus fazer uma feijoada para o lançamento de enredo, festa de piloto de fantasias. Isso teve resultado, mas não o que eu imaginava. Eu até falei para a direção que eu abro mão dessas coisas para a gente tentar alguma outra ação que consiga resultado melhor. Que sejam obras sociais, festas para a comunidade... Vamos experimentar outras variações esse ano. Não tenho a data. Com certeza devo terminar os pilotos até o final de julho e aí já começar a reprodução. No barracão a gente já tem ferreiro lá e está só esperando uma resolução final da direção para começar o trabalho. Quanto ao samba, é uma situação bem difícil. É bacana você poder fazer um concurso com os poetas da casa, mas a Milênio é uma escola muito jovem e quando você vai ver, forma um, dois times. Então eu acho que talvez a receita seja partir para um concurso mais fechado.

Liga SP - E o que do enredo de 2019 você pode adiantar?
Murilo Lobo - É a minha cara um enredo de conteúdo. Graças a Deus a Milênio é uma escola que tem apoiadores que apostam em projetos de cultura popular e não em venda de produtos, nada disso. A gente tem a intenção de trabalhar um enredo novamente que possa trazer cultura para nossa comunidade, conhecimento, porque eu acredito que esse é nosso papel, seja através de uma homenagem, seja através de um tema abstrato, mas trazer alguma reflexão, algum entendimento. Quando a gente resolveu falar sobre a coruja, eu falava do mascote da escola, tinha uma coisa de fazer as pessoas conhecerem um pouquinho mais profundamente esse mascote que foi um dia escolhido para estar desenhado no pavilhão e como ele tem um significado muito amplo que talvez a gente até desconhecesse. Eu gosto de passar isso e meus enredo sempre virão nessa linha de cultura popular de alguma forma. E também eu penso assim: o que esta comunidade neste momento está precisando ouvir? Então, quando a gente divulgar oficialmente, você vai se lembrar do que eu falei. Vai pensar "entendi o que ele quis falar com esse enredo". Tem a ver com o que as pessoas precisam ouvir naquele instante. Essa é minha escolha.